Domingo, Fevereiro 29, 2004
Arthur Lavine: Subway Exit, New York City (pra quem gosta!), 1999
por aly . 4:23 AM .
Sábado, Fevereiro 28, 2004
Armand Rassenfosse, Le Beau Songe, 1920
Duas jóias do amigo Erazê, um desmandamento e uma questão:
Tudo bem: 'Não cobiçar a mulher do próximo'. Mas quando só tem ela?
Não é apenas uma questão de encontrar alguém com quem fazer sexo,
mas alguém com quem fazer depois.
Erazê Martinho: inmailboxinboxmail
por aly . 7:46 AM .
Cavalcanti, 1932
A mi, me preguntan siempre:
"Alberto, un poco de amor del cinedeluomo, de femmina,
de donna! No? De animales?"
Entonces, está: los animalitos suono globales.
Cultura, gente, e sobretudo personas, están a esperar
en la cajita de cagados, los tartarugos.
Da SIPAH&M, presidida por
por aly . 3:24 AM .
Sexta-feira, Fevereiro 27, 2004
Gato, cão & alimentação: eles q se resolvam!
Como nós, enchendo os supermercados!!??
Filhos, filhos, melhor não tê-los; se animais,
melhor sabê-los....
GRATIDÃO
Almoçava o meu frango, o cão e o gato
comiam ao meu redor o resto
dos ossos que caíam do meu prato.
E patrão honesto,
vigiei sem preguiça,
a distribuição
com toda a justiça
e sem distinção.
Mas, uma vez vazio o prato, eu,
vendo o gato sair, disse: - Que foi?
Vai-se embora? - Decerto, respondeu,
pois o frango também já se não foi?
O contrário, porém, com o cão se deu,
que em alegria acesa,
me veio ao colo e minhas mãos lambeu.
- Bravos! Eu disse, mostra à nobreza,
que inda há no mundo alguma coisa sã!
E ele respondeu: - Sim, pois com certeza,
outro frango teremos amanhã.
Trilussa (C.A.Salustri, 1873-1950)
Tradução : Paulo Duarte
por aly . 4:31 PM .
Hiroshi Inagaki: Samurai, 1955
(Os japoneses deles são mais criativos que os nossos
japoneses: hohohoho...)
por aly . 2:18 AM .
DESOPTEI!
Espanto compartilhado:
Lula e Marta ainda são do PT?
Alguém sabe me dizer se o PT ainda é o Partido dos Trabalhadores? Se Lula e Marta ainda são do PT? O que está havendo? Não entendo mais nada quando leio notícias de que "o governo pretende enviar ao Congresso o texto de uma reforma sindical que deve acabar com o dissídio coletivo e a data-base para negociação entre empregados e empregadores"; este não é o mesmo PT nascido nos anos 70 no ABC. A confusão fica pior ainda quando leio que "os 8,5 km do Fura-Fila, proposto e abandonado por Celso Pitta, que custaria R$ 147 milhões na época, ou R$ 210 milhões em valores de hoje, foi rebatizado de Paulistão pela atual prefeita e vai custar R$ 462 milhões ao povo". O que está acontecendo? Onde é que foi parar a coerência dessa gente? Quem eles representam agora? Por que abandonaram os ideais tão facilmente? Como fizeram isso sem avisar aos eleitores? Quem se atreve a responder? Ah, já sei... Estou lendo jornais velhos, do mês passado, é isso... "O importante é ser fevereiro e ter carnaval pra gente sambar."
Do beloblog Circulando: 2 de fevereiro de 2004.
por aly . 1:55 AM .
Quinta-feira, Fevereiro 26, 2004
Chico Caruso: Pablo, mon amour!
por aly . 7:21 PM .
Quarta-feira, Fevereiro 25, 2004
Voyeur II
Thomas Roma. Untiltled, Brooklyn, 1994 from Higher Ground
© 1998 Thomas Roma
por aly . 9:57 PM .
Anna Karina em Vivre sa Vie, de JL Godard, 1962
Arrojos
Se a minha amada um longo olhar me desse
Dos seus olhos que ferem como espadas,
Eu domaria o mar que se enfurece
E escalaria as nuvens rendilhadas.
Se ela deixasse, extático e suspenso
Tomar-lhe as mãos mignonnes e aquecê-las,
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso
Apagaria o lume das estrelas.
Se aquela que amo mais que a luz do dia,
Me aniquilasse os males taciturnos,
O brilho dos meus olhos venceria
O clarão dos relâmpagos nocturnos.
Se ela quisesse amar, no azul do espaço,
Casando as suas penas com as minhas,
Eu desfaria o Sol como desfaço
As bolas de sabão das criancinhas.
Se a Laura dos meus loucos desvarios
Fosse menos soberba e menos fria,
Eu pararia o curso aos grandes rios
E a terra sob os pés abalaria.
Se aquela por quem já não tenho risos
Me concedesse apenas dois abraços,
Eu subiria aos róseos paraísos
E a Lua afogaria nos meus braços.
Se ela ouvisse os meus cantos moribundos
E os lamentos das cítaras estranhas,
Eu ergueria os vales mais profundos
E abateria as sólidas montanhas.
E se aquela visão da fantasia
Me estreitasse ao peito alvo como arminho,
Eu nunca, nunca mais me sentaria
Às mesas espelhentas do Martinho.
Cesário Verde, Lisboa, Diário de Notícias, 22 de março de 1874
In: Obra Completa. Organizada, prefaciada e anotada por Joel Serrão.
Lisboa: Horizonte, 1983
por aly . 7:11 AM .
Terça-feira, Fevereiro 24, 2004
Quino
por aly . 11:53 PM .
Robert Crumb
Entrevista de Vera Malaguti Batista à RETS:
Rets - O medo que se vive hoje no Rio de Janeiro é diferente do que sentem cidadãos e cidadãs de outros grandes centros urbanos no Brasil e no exterior?
Vera Batista - Dois acontecimentos recentes têm tudo a ver com o meu trabalho: foram os casos do filho de criação do Caetano, no Rio, e do dentista assassinado em São Paulo. Eu até penso assim: o segurança e os policiais são treinados para isso. O que tem de errado ali é o menino ser filho do Caetano e o outro ser dentista. Eu trabalho muito a "estética do shopping center". O shopping center é um lugar de brancos bem nascidos. O pobre e o negro são sempre alguma coisa "fora do lugar". O errado, entre aspas, no sentido da naturalização da hierarquia social brasileira, é aquele menino ser um jovem dentista, porque todo negro morto é, também entre aspas, traficante. A polícia, o segurança, eles só encarnam esse desejo coletivo da elite. A elite brasileira é cruel, exterminadora. E com o neoliberalismo essas coisas se acentuaram. A taxa de letalidade no nosso capitalismo é altíssima, barbárie total, só que de vez em quando pegam alguém "errado". Aí todo mundo quer cidadania, direitos humanos...
Rets - No livro, você traça um panorama dessa estratégia de dominação através do medo que remonta ao século 19. Como é possível que essa estratégia tenha se mantido por tanto tempo e de forma tão imperceptível?
Vera Batista - O extermínio é a marca inaugural da conquista da América. A civilização é a barbárie. Nossa história é muito violenta seletivamente, violenta contra os índios, os africanos... O interessante no século 19 é que você tem uma ruptura a partir da independência do Brasil, com uma nova Constituição, uma arquitetura jurídico-penal de um país independente. Aí é o momento em que o liberalismo está entrando no Brasil e você tem o eterno paradoxo da cidadania brasileira - que eu chamo de "ciladania" -, que é entre liberalismo e escravidão. O grande dilema brasileiro era ser liberal sem abrir mão da escravidão. A Constituição brasileira era um exemplo, o código penal de 1830 foi copiado até na Espanha, mas, ao mesmo tempo, convivia-se com esse paradoxo de dizer que o direito à propriedade estava acima de todos os direitos. Como o escravo era propriedade... O escravo aparece como coisa perante o ordenamento jurídico das relações privadas, mas ele é pessoa perante o direito penal.
por aly . 5:50 PM .
Dinah Shore circa 1950
"Além de 'Chiquita Bacana', outra peça da obra de João de Barro que obteve
relevo internacional foi 'Touradas em Madri', gravada nos Estados unidos
por Xavier Cugat, Dinah Shore, Carmen Miranda e pelas Andrew Sisters.
A marcha proporcionou ao compositor uma de suas maiores emoções, ao ser
cantada por grande parte do público que lotou o Maracanã no jogo do Brasil
contra a Espanha, durante a Copa do Mundo, em 1950."
TOURADAS EM MADRID
De Alberto Ribeiro e João de Barro,
na voz encorpada de Dinah Shore,
sem discussão, hohohoho....
Eu fui às touradas em Madri
Para tim bum, bum, bum
Para tim bum, bum, bum
E quase não volto mais aqui
Para ver Peri beijar Ceci
Para tim bum, bum, bum
Para tim bum, bum, bum
Eu conheci uma espanhola natural da Catalunha
Queria que eu tocasse castanhola
E pegasse o touro à unha
Caramba, caracoles, sou do samba
Não me amoles
Pro Brasil eu vou fugir
Que isso é conversa mole para boi dormir
Para tim bum, bum, bum
Para tim bum, bum, bum
por aly . 12:09 AM .
Segunda-feira, Fevereiro 23, 2004
Eldorado: cartaz de 1894 por Jules Cherét
O cartaz
À medida que Cherét alcançou uma certa proeminência na Paris de
fim-de-século o mesmo aconteceu com a cherétte como era chamada
a dançarina com ares de ninfa que dominou seus desenhos. Flutuando
de felicidade, ela aparecia na maioria das vezes no vácuo como neste
cartaz de 1894 para o Eldorado um music-hall da moda. Ela era iluminada
por baixo, como uma atriz que se postava no brilho intenso das luzes da
ribalta, mas dispensava o palco, pairando inquieta contra o fundo. Suas
pernas não carregavam o peso do seu corpo e, ousadamente descobertas,
dançavam no ar, enquanto alguns palhaços a contemplavam em adoração.
Ela era uma atriz, e seu charme era feito de artifício. Em sua atuação, as
maquinações do mundo do entretenimento eram combinadas às artimanhas
do artista, que a retocava e acentuava sua exposição sexual ao mesmo tempo
em que a afastava para uma zona indefinida acima e além do seu perímetro
usual.
Irriquieta e provocante, a chérette era uma figura de descarado convite ao
sexo, mas sua suspensão enfraquecia a corporalidade da sua presença e
removia a sua pantomima do desejo para o reino da fantasia. Aparentemente,
ela oferecia e transcendia seu corpo em um único movimento.
Publicidade e prostituição
Diversos escritores, incluindo alguns defensores do cartaz, traçaram o mesmo
paralelo. Uma jovem fez o papel de La Réclame (O Anúncio) em uma pantomima
de 1888, um tipo de hino à prostituição, do escritor decadentista Félicien
Champsaur; com termos piegas e alegóricos, ela foi retratada conspirando na
escravização gradual de uma jovem a seus pretendentes. Para Champsaur,
publicidade e prostituição eram variações de um mesmo tema, a celebração
alegre da beleza feminina para fins comerciais.
Marcus Verhagen: O Cartaz na Paris Fim-de-século.
In: Leo Charney e Vanessa Schwartz (org.)
O Cinema e a Invenção da Vida Moderna. São Paulo, Cosac & Naify, 2001.
por aly . 2:23 PM .
Sábado, Fevereiro 21, 2004
melancholiegroebli8alyinfestas2004carnivalium
por aly . 6:50 AM .
MIRABEAU PINHEIRO
Cachaça
Mirabeau, Lúcio de Castro, Heber Lobato e Marinosio,
na voz de Carmen Costa, carnaval de 1953
Você pensa que cachaça é água
cachaça não é água não
cachaça vem do alambique
e água vem do ribeirão(bis)
Pode me faltar tudo na vida
arroz, feijão e pão
pode me faltar manteiga
e tudo mais não faz falta não
Pode me faltar o amor
isso eu até acho graça
só não quero que me falte
a danada da cachaça
Turma do funil
Mirabeau, M.de Oliveira e Castro
Chegou a turma do funil
Todo mundo bebe
Mas ninguém dorme no ponto
Ai, ai, ai, ai, ninguém dorme no ponto
Nós é que bebemos e eles que ficam tontos (bis)
Eu bebo sem compromisso
Com meu dinheiro
Ninguém tem nada com isso
Aonde houver garrafa
Aonde houver barril
Presente está a turma do funil
Fala Mangueira
Mirabeau e Milton de Oliveira
Fala Mangueira, fala,
Mostra a força da sua tradição
Com licença da Portela
A favela Mangueira
Mora no meu coração (bis)
Suas cabrochas gingando,
Seus tamborins repicando
É monumental.
Estou falando da Mangueira
A velha Mangueira tradicional.
Tem nego bêbo aí
Mirabeau e Ayrton Amorim, 1955
Foi numa casca de banana que pisei, pisei
Escorreguei, quase caí
Mas a turma lá de trás gritou, chi...
Tem nego bêbo aí, tem nego bêbo aí (bis)
Se a gente está no bonde
Ou mesmo no lotação
Falando um pouco alto
É falta de educação
Se entra no boteco
Para tomar um parati, chi...
Tem nego bêbo aí, tem nego bêbo aí....
Jarro da saudade
Mirabeau, Daniel Barbosa e Geraldo Blota
Iaiá, cadê o jarro
O jarro que eu plantei a flor
Eu vou te contar um caso
Eu quebrei o jarro e matei a flor. (bis)
Que maldade . . . Que maldade! . . .
Você bem sabia
No jarro de barro
Eu plantei a saudade! . . .
Só pra chatear no carnaval com &t
por aly . 5:08 AM .
Sexta-feira, Fevereiro 20, 2004
por aly . 8:53 PM .
Quinta-feira, Fevereiro 19, 2004
HISTÓRIA DO BRASIL
Capa da prima edizione de Pau-Brasil por
Tarsila do Amaral, 1925
Falação
(excertos)
A língua sem arcaísmos. Sem erudição. Natural e neológica.
A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos.
Como somos.
País de dores anônimas. De doutores anônimos. Sociedade
de náufragos eruditos.
A Poesia Pau-Brasil é uma sala de jantar domingueira,
com passarinhos cantando na mata resumida das gaiolas,
um sujeito magro compondo uma valsa para flauta e
a Maricota lendo o jornal. No jornal anda todo o presente.
Obuses de elevadores, cubos de arranha-céus e a sábia
preguiça solar. A reza. O Carnaval. A energia íntima. O sabiá.
A hospitalidade um pouco sensual, amorosa. A saudade dos
pajés e os campos de aviação militar. Pau-Brasil.
Toda a história da Penetração e a história comercial da
América. Pau-Brasil.
O Carnaval. O Sertão e a Favela. Pau-Brasil. Bárbaro e nosso.
Oswald de Andrade: in Manifesto da Poesia Pau-Brasil, 1924.
Pero Vaz Caminha
as meninas da gare
Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha
Frei Vicente Salvador
paisagem
Cultivam-se palmares de cocos grandes
Principalmente à vista do mar
Fernão Dias Paes
carta
Partirei
Com quarenta homens brancos afora eu
E meu filho
E quatro tropas de mossos meus
Gente escoteyra com pólvora e chumbo
Vossa Senhoria
Deve considerar que este descobrimento
É o de maior consideração
Em rasam do muyto rendimento
E também esmeraldas
J.M.P.S.
(da cidade do porto)
vício na fala
Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mió
Para pior pió
Para telha dizem teia
Para telhado teiado
E vão fazendo telhados
POEMAS DA COLONIZAÇÃO
fazenda antiga
O Narciso marceneiro
Que sabia fazer moinhos e mesas
E mais o Casimiro da cozinha
Que aprendera no Rio
E o Ambrósio que atacou seu Juca de faca
E suicidou-se
As dezenove pretinhas grávidas
negro fugido
O Jerônimo estava numa outra fazenda
Socando pilão na cozinha
Entraram
Grudaram nele
O pilão tombou
Ele tropeçou
E caiu
Montaram nele
cena
O canivete voou
E o negro comprado na cadeia
Estatelou de costas
E bateu coa cabeça na pedra
medo da senhora
A escrava pegou a filhinha nascida
Nas costas
E se atirou no Paraíba
Para que a criança não fosse judiada
azorrague
- Chega! Peredoa!
Amarrados na escada
A chibata preparava os cortes
Para a salmoura
o capoeira
- Qué apanhá sordado?
- O quê?
- Qué apanhá?
Pernas e cabeças na calçada
o recruta
O noivo da moça
Foi para a guerra
E prometeu se morresse
Vir escutar ela tocar piano
Mas ficou para sempre no Paraguai
relicário
No baile da Corte
Foi o Conde D'Eu quem disse
Pra Dona Benvinda
Que farinha de Suruí
Pinga de Parati
Fumo de Baependi
É comê, bebê, pitá e caí
senhor feudal
Se Pedro Segundo
Vier aqui
Com história
Eu boto ele na cadeia
In: Oswald de Andrade. Poesias Reunidas. São Paulo: DIFEL, 1966.
Ano 448 da Deglutição do Bispo Sardinha
por aly . 8:24 PM .
Ora você vê, ora você não vê!
Primero: Mussolini con la espada del Islam en Trípoli,
el 29 de junio de 1942. Un hombre cuida que el caballo
se quede en su lugar para que la foto no salga movida.
Después: El 'Duque', versión ligeramente retocada.
Para que nadie crea que no sabe montar solo a caballo.
Pra rachar o bico: aqui.
por aly . 6:25 AM .
Quarta-feira, Fevereiro 18, 2004
SAMUEL BECKETT: FILM
"O único meio de renovação consiste em abrir os olhos
e contemplar a desordem. Não se trata de uma desordem
que nos resta compreender. Sugeri que deixem ela à
vontade porque ela é a verdade."
Samuel Beckett
Generalidades
Esse est percipi
Suprimida toda percepção extranha, animal, humana,
divina, mantém-se a autopercepção.
Busca do não-ser em fuga da percepção extranha
decompondo-se em inevitabilidade de autopercepção.
Nehuma valoração de verdade nos parágrafos acima,
considerados apenas como simples conveniência
estrutural e dramática.
Com vistas a ser representado nesta situação o
protagonista se divide em objeto (O) e olho (OL),
o primeiro em fuga, o último em perseguição.
Até o final do filme não ficará claro que o perceptor
que persegue não é algo extranho, mas o eu.
Até o final do filme O é percebido por OL por trás
e num ângulo não superior a 45º. Convenção: O entra
percipi = experimenta a angústia de ser percebido,
somente quando se sobrepassa esse ângulo.
E portanto, durante toda a perseguição tenta manter-se
dentro desse "ângulo de imunidade" e só o sobrepassa
inadvertidamente no começo da primeira parte ( a rua)
quando divisa pela primeira vez a O, inadvertidamente
no começo da segunda parte (a escada) quando entra
atrás de O no vestíbulo e deliberadamente no final da
terceira parte (a habitação) quando O é encurralado.
O filme é completamente mudo, salvo o "sssh!" da
primeira parte.
O clima do filme é cômico e irreal. O deve provocar
riso todo o tempo por sua forma de mover-se.
Irrealidade das cenas de rua (ver notas dessa parte).
Preâmbulo do roteiro de Film.
Samuel Beckett. Barcelona: Tusquets, 1975.
"Film é a única incursão de Beckett no cinema. Escrito em 1963, foi rodado em Nova Iorque no verão de 1964, dirigido por Alan Schneider e protagonizado por Buster Keaton. Para a filmagem, Beckett se deslocou para os EUA em julho de 1964, sua única viagem a este país.
O filme, q não tem diálogos, somente um som - um ligeiro "sssh!" -, parte da teoria de Berkeley "Esse est percipi", ou seja "ser é ser percebido": mesmo que se suprima toda a percepção exterior - seja esta animal, humana ou divina - permanece a autopercepção. Entretanto, em que pese este princípio filosófico, o filme, como toda a obra de Beckett, contém elementos de comédia.
Buster Keaton desempenha o papel de um homem que, fugindo por uma rua quase deserta, adentra um saguão, sobe pela escadas do edifício e penetra uma habitação - provavelmente a sua -, onde, cuidadosamente, oblitera toda a realidade exterior: fecha a cortina, cobre o espelho, expulsa gato e cachorro, esconde a gaiola do pássaro e o aquário e começa a rasgar as fotos do seu passado. Entretanto, o problema da auto-percepção continua insolúvel.
Film, recebeu vários prêmios: Prêmio da Crítica no Festival de Veneza em 1965,o Prêmio Especial do Júri no festival de Tours (França) em 1966 e o Prêmio Especial do Festival de Oberhausen (Alemanha) em 1966.
Román Gubern, na quarta capa do livro acima citado .
" Film pode ser visto, também, como a culminação da obra de Beckett, uma espécie de compêndio de toda a sua escritura, sem cuja referência, sua obra fica em grande medida incompreensível, ou, pelo menos, empobrecida significativamente."
Jenaro Taléns, no prólogo da obra supracitada.
Iconografia: Buster Keaton em Film.
Tradução: aly
por aly . 8:31 PM .
Fotografía de boda de Antonio Machado y Leonor. Soria, julio de 1909
Consejos
I
Este amor que quiere ser
acaso pronto será;
pero ¿cuándo ha de volver
lo que acaba de pasar?
Hoy dista mucho de ayer.
¡Ayer es Nunca jamás!
II
Moneda que está en la mano
quizá se deba guardar:
la monedita del alma
se pierde si no se da.
Hoy buscarás en vano
a tu dolor consuelo.
Lleváronse tus hadas
el lino de tus sueños.
Está la fuente muda,
y está marchito el huerto.
Hoy sólo quedan lágrimas
para llorar. No hay que llorar, ¡silencio!
Nuestras horas son minutos
cuando esperamos saber,
y siglos cuando sabemos
lo que se puede aprender.
Proverbios y Cantares
XXXVI
No és el yo fundamental
eso que busca el poeta,
sino el tu essencial.
LXVI
Poned atención:
un corazón solitario
no es un corazón.
LXXXV
¿Tu verdad? No, la Verdad,
y ven conmigo a buscarla.
La tuya, guárdatela.
Antonio Machado: Nuevas Canciones, 1917-1930
por aly . 1:33 PM .
Terça-feira, Fevereiro 17, 2004
Pablo Escobar
EL PATRÓN EM VEZ DO PADRINO
Filmes, peça e documentários reescrevem a vida de Pablo Escobar.
Em outras palavras, os padrini da Cosa Nostra de Nova York, da Máfia siciliana,
da Camorra napolitana, da 'Ndrangheta calabresa e da pugliese Sacra Corona Unità
estão sendo desbancados pelo carismático Escobar, apelidado de El Patron e
fundador do Cartel de Medellín.
Por conseqüência, deixam a cena Al Pacino, Marlon Brando e outros tradicionais
intérpretes da malavita. No lugar, entram Antonio Banderas e Javier Bardem, o
primeiro no papel de policial caçador e o segundo no de Escobar, uma caça,
na sua época, à altura de Osama bin Laden pós 11 de setembro de 2001.
Leia na íntegra aqui, na melhor revista semanal brasileira. Veja fica no chinelo. Mano, se toca!
É, gente: "toda araruta tem seu dia de mingau". (dictatus popolare)
por aly . 8:20 PM .
Pornocine
"Ah, deixem-se de abraços e de beijos
de grandes planos de frentes e traseiros!
Não se lambam sob a luz cruenta
dos projectores.
Poupem-nos a essas cópulas
tecnicolores.
Na posição de "o missionário", denegrida,
ainda se move muita gente, muita vida.
Se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana!... "
[Alexandre O'Neill, in Revista Relâmpago, nº 13, 2003 (aliás in A Luta, 1/7/1976)]
Posted 2:30 AM by masson: O Almocreve
por aly . 12:30 PM .
PROTEIN LATTICE 1997
por Patricia Piccinini
por aly . 12:18 PM .
siamo una famiglia
por aly . 12:07 PM .
Segunda-feira, Fevereiro 16, 2004
RIO DE JANEIRO
"O Rio como a Bahia espera uma equipe de artistas que o reabilite que o salve dos 'ilustradores', dos fabricantes de cromos, de sua falsa situação de 'cidade maravilhosa'. Porque o Rio é hoje uma cidade trágica, arena de encontro entre a nova técnica e a natureza bárbara, testemunho do desajustamento cultural, espiritual e político do homem brasileiro, lugar dos mais violentos contrastes, capital burguesa da angústia e da injustiça social; sede de um drama de enormes proporções, do sepultamento da baía e sua transformação em pista de automóveis, da camuflagem dos morros pelos arranha-céus de monstruoso mau gosto, da mutilação de vidas humanas por veículos que escaparam ao Dante e ao Apocalipse."
Murilo Mendes
In:"A Pintura em pânico": Autores e Livros, Rio de Janeiro, 14 de fevereiro de 1943.
Apud: Laís Corrêa de Araújo. Murilo Mendes: Ensaio Crítico. Antologia. Correspondência.
São Paulo, Perspectiva, 2000.
por aly . 1:25 PM .
Sábado, Fevereiro 14, 2004
Borges en el Café
OS LAMED WUFNIKS
Há na terra, e sempre houve, 36 homens íntegros cuja missão
é justificar o mundo perante Deus. São os Lamed Wufniks.
Não se conhecem entre si e são muito pobres. Se um homem
chega a saber-se um Lamed Wufnik morre imediatamente,
e há outro, em algum lugar do planeta, que toma o seu lugar.
São, sem suspeitarem disso, os secretos pilares do universo.
Se não fosse por eles, Deus aniquilaria o gênero humano.
São nossos salvadores e não o sabem. Esta crença mística
dos judeus foi revelada por Max Brod.
Sua origem remota pode ser procurada no capítulo XVIII
do Gênesis, em que o Senhor diz que não destruirá a cidade
de Gomorra, se nela houver dez homens justos.
Os árabes têm personagens semelhantes: os Kutb.
Jorge Luis Borges e Margarita Guerrero.
El Libro de los Seres Imaginarios. Barcelona, Emecé, 1990.
tradução: Alberto Lyra
por aly . 4:18 PM .
Crânio Cro-Magnon: foto de David Brill
As novas regras do Blogger Brasil estão nos conduzindo à Idade da Pedra
dos blogs. As novas ferramentas exigidas: silex, tacape, martelo de pedra
et outras, são de difícil aquisição no comércio local de São Paulo. Creio
que assistindo alguns programas da Globo eu consiga, no break de anúncios,
alguma dica para obtê-los. Obrigado, corporações, vocês têm o senso da
história preá.
por aly . 8:29 AM .
Sexta-feira, Fevereiro 13, 2004
BLOGGER.COM.SEM.BR
DEPOIMENTOS:
Fevereiro,13, 2004
PELA PORTA DOS FUNDOS
O Fábio ofereceu uma solução provisória para nós, os excluídos nas terras estrangeiras, podermos acessar os blogs hospedados no blogger.com.br. Eu testei e dá certo, só que fica tudo muito lento e requer um tantinho de paciência. Mas é melhor do que ficar de fora, sem poder ler os amigos....
Fer Guimaraes Rosa
link it - track it back [0] - talk about it [4]
Fevereiro,12, 2004
EXCLUÍDOS
Hoje eu não consegui acessar nenhum blog hospedado no blogger.com.br e agora li no Cris Dias que a Globo BLOQUEOU os acessos internacionais aos blogs hospedados no serviço deles [como eles já faziam com o famigerado kit.net]. Isso quer dizer que não vou mais poder ler um montão de blogs que eu gosto.... Estou desolada.......
Fer Guimaraes Rosa
link it - track it back [0] - talk about it [7]
Fevereiro, 12, 2004
TopLinks comprometido. Notou como o TopLinks anda magro? Eu notei.
O motivo só fui entender hoje. O Blogger.com.br seguiu o rumo do seu irmão kit.net e barrou acesso a computadores localizados fora do Brasil. Como a robozada ficou em Winnipeg o grosso dos sites não está sendo indexado.
Como eu disse na época do Kit.net eu entendo a medida dos caras. Tem gente por aí usando o serviço para o que não deve (pirataria e pornografia) e sobra para quem é honesto. Mas por outro lado, malandro... não tem bala para bancar um serviço que se propõe a ser o maior do Brasil, tira o time de campo. Ou eles acham que só quem mora no Brasil lê blog de brasileiro?
Vou projetar uma solução tabajarística e ver se dá para rodar os robôs específicos do blogger.com.br aqui de casa, mas honestamente não tenho paciência pra isso não.
Pontocom, por Cristiano Dias, 17:51. 10 comentários.
por aly . 11:52 PM .
DICCIONARIO
DOS SYNONYMOS
POETICO E DE EPHITETOS
DA
LINGUA PORTUGUEZA
POR
J.- I. ROQUETE
E
JOSÉ DA FONSECA
PARIS: GUILLARD & AILLAUD, 1892
1966.- Caracter, constancia.
A palavra caracter, hoje muito usada, é grega e designa,
em seu sentido proprio, aquella qualidade que distingue as
cousas e as pessoas uma das outras, e assim chamamos
homem de caracter ao que permanece constante
na opinião ou idéa que formou uma vez, no partido que adoptou,
na resolução que tomou; qualidade a mais excellente no
homem, pois que suppõe e comprehende as de animo, valor,
soffrimento, firmeza, vigor e força. Ha poucos homens de
caracter firme, constante, tanto na prospera como na adversa
fortuna. A maior parte varia, muda e contradiz-se pelo teor das
circumstancias e de seus proprios interesses, e isto se chama
não ter caracter.
O caracter suppõe constancia, que é perseverar n'aquillo a que
uma vez nos propuzemos; é proprio da constancia não variar,
apezar das contradicções que se presentem, ou dos trabalhos
e desgraças que possão sobrevir. - A constancia toma-se em
bom sentido, pois em o mal se chama obstinação ou teima. O
caracter póde ser bom ou mau; todo o seu merecimento
consiste em não mudar.
por aly . 2:24 PM .
Poetry Contest, Zodiac Emaki, hand scroll
photo courtesy Kyoto Nat'l Museum
Sartrismo
"O inferno astral são os outros signos."
Por Erazê Martinho: inmailboxinboxmail
por aly . 2:50 AM .
Quinta-feira, Fevereiro 12, 2004
AS DELÍCIAS DO CAMPO... AH...
Fotos de Peter Adams: Matos & Matinhos
por aly . 5:14 AM .
Quarta-feira, Fevereiro 11, 2004
FRENTE & VERSO: POESIA?
Fotos de Peter Adams: Jill
por aly . 12:00 PM .
Terça-feira, Fevereiro 10, 2004
Dos tetrápodos anamniotas, Bufo Calamita:
O SAPO
Nasceu de uma pedra. Vive debaixo. E sob ela cavará sua tumba.
Eu o visito com frequência. E cada vez que visito sua pedra tenho
medo de encontrá-lo e medo de que já não esteja.
Está.
Ali, escondido em sua jazida. Seca, limpa, estreita e a seu gosto.
Ocupa-a plenamente, inchado como uma carteira de avarento.
Se a chuva o enxota, ele vem e se põe diante de mim. Uns
quantos saltos medidos. Logo se detém sobre suas coxas e me
olha com olhos avermelhados. Se o mundo injusto o trata como a
um leproso, eu não temo em ficar de cócoras diante dele, e,
aproximo ao seu, um rosto de homem.
'Para acariciar-te, sapo, só me falta vencer o último escrúpulo
de asco!'
Coisas piores engolimos na vida.
Porém ontem faltou-me tato. Suas verrugas estouraram e o sapo
fermentava e suava. Disse a ele:
- Pobre amigo, não quero ofender-te. Certamente, valha-me Deus!
És feio...
Abriu com cálido alento a boca pueril e desdentada, e me respondeu
com um ligeiro sotaque inglês:
- E tu?
Juan José Arreola, Aproximaciones: Jules Renard.
In: J.J. Arreola. Bestiario. México(DF): Joaquin Mortiz, 1976.
tradução: Alberto Lyra
por aly . 12:57 PM .
yo también: así, rôrôrôrô...
TOMO Y OBLIGO
Letra: Manuel Romero
Música: Carlos Gardel
Año: 1931
Tomo y obligo; mándese un trago,
que hoy necesito el recuerdo matar...
iSin un amigo, lejos del pago,
quiero en su pecho mi pena volcar!
Beba conmigo, y se empaña
de vez en cuando mi voz al cantar,
no es que la llore porque me engaña,
yo sé que un hombre no debe llorar...
Si los pastos conversan, esta Pampa le diría
con qué fiebre la quería, de que modo la adoré...
¡Cuántas veces de rodillas, tembloroso, yo me he hincado
bajo el árbol deshojado donde un día la besé...!
Y hoy, al verla envilecida, a otros brazos entregada,
fue pa' mi una puñalada, y de celos me cegué...
y le juro: iTodavía no consigo convencerme,
cómo pude contenerme y ahí no más la maté!
Tomo y obligo; mándese un trago,
de las mujeres mejor no hay que hablar.
Todas, amigo, dan muy mal pago
y hoy mi experiencia se lo puede afirmar.
Siga un consejo: no se enamore...
Y si una vuelta le toca hocicar,
iFuerza, canejo! iSufra y no llore,
que un hombre macho no debe llorar!
por aly . 2:24 AM .
Segunda-feira, Fevereiro 09, 2004
J. J. Arreola
"Si me obligaran a cifrar a Juan José Arreola
en una sola palabra que no fuera su nombre, esa palabra sería,
estoy seguro, libertad. Libertad de una ilimitada imaginación,
regida por una lúcida inteligencia."
Jorge Luis Borges
"Etna dá luz azul a Dante"
Palíndromo de J.J. Arreola
HISTÓRIA DOS DOIS QUE SONHARAM?
Durante a festa de despedida que o Fondo de Cultura Ecónomica deu para
Joaquin Díez-Canedo, Agustín Yáñez me apresentou ao doutor Córdova,
diretor da Casa de Cultura de Jalisco. O doutor Córdova convidou-me a
fazer uma conferência em Guadalajara. Aceitei.
- Peça-lhe só isso: que não vá tirar a roupa em público.
- Agustín, por favor...
- Imagine, doutor, que outro dia encontrei Arreola caminhando nu pela
avenida Madero.
- Mas isso eu sonhei na semana passada!
O doutor Córdova sorriu com dificuldade. Yáñez prosseguiu, implacável:
- Não, Arreola, o senhor não sonhou. O senhor tirou a roupa na esquina
da Bolívar. Eu passava de automóvel perto do cine Rex. Desci e pude
resgatá-lo em meio aos curiosos. Um policial estava a ponto de botar-lhe
as mãos.
O doutor Córdova, aflito, quis salvar-me, por sua vez, e indagou-me o tema
da conferência. Não pude responder. Em meu sonho eu senti que algo
me envolvia, me livrava da vergonha entre a multidão.
Francamente, não vi Yáñez.
- O senhor não sonhou. Cuide-se.
E Agustín voltou-me as costas com sua costumeira frieza.
J.J. Arreola: Palindroma.
México (DF): Joaquim Mortiz, 1980. Cuarta edición.
tradução: Alberto Lyra
por aly . 4:32 PM .
VOYEUR: se quiserem saber...
Marc Rivière: s/t, Paris, 1990
In:Voyeur
Charles Melcher e Steven Diamond, Melcher Media & Harper Collins Editores, NY
Direitos de autor do livro: Voyeur © 1999 por Melcher Media, Inc.
Direitos de autor das fotografías: © pelos respectivos fotógrafos ou seus herdeiros.
Todos os direitos, na blogolândia, hohohoho, reservados para e
por aly . 4:21 AM .
Domingo, Fevereiro 08, 2004
Chicago Picture Co. circa 1880
A vida em Quatro Tempos
Custódio Mesquita e Paulo Orlando
Na voz do 'Caboclinho Querido':
Silvio Caldas, 1943.
Namorados numa rua
Sozinhos pela calçada
No céu, estrelas a lua
Na terra nós dois, mais nada.
Noivos em casa, anoitece
Beijos, abraços, ninguém
Voa o tempo e a gente esquece
O tempo que o tempo tem.
Casados. Igreja, abraços
Papai, mamãe, despedida
Enfim sós, mil embaraços
Parou de repente a vida.
Depois a realidade
O tempo a correr... bebês
Dez anos depois, nós dois
Não somos dois, somos dez!
por aly . 5:07 AM .
EMMANUEL LÉVINAS:
A RESPONSABILIDADE POR OUTREM
Emmanuel Lévinas
Diálogo com Philipe Nemo
Nemo - Mas o outro não é também responsável a meu respeito?
Lévinas - Talvez, mas isso é assunto dele. Um dos temas fundamentais, de que ainda não falamos, de Totalidade e Infinito, é que a relação intersubjetiva é uma relação não-simétrica. Neste sentido, sou responsável por outrem sem esperar a recíproca, ainda que isso me viesse a custar a vida. A recíproca é assunto dele. Precisamente na medida em que entre outrem e eu a relação não é recíproca é que eu sou sujeição a outrem; e sou "sujeito" essencialmente neste sentido. Sou eu que suporto tudo. Conhece a frase de Dostoievsky*: "Somos todos culpados de tudo e de todos perante todos, e eu mais do que os outros." Não devido a esta ou àquela culpabilidade efetivamente minha, por causa de faltas que tivesse cometido; mas porque sou responsável de uma responsabilidade total que responde por todos os outros e por tudo o que é dos outros, mesmo pela sua responsabilidade. O eu tem sempre uma responsabilidade a mais do que todos os outros.
Nemo - Quer dizer que, se o os outros não fazem o que têm a fazer, é por minha causa?
Lévinas - Aconteceu-me dizer algures que sou responsável pelas perseguições que sofro. Mas apenas eu! Os "meus próximos" ou "o meu povo" são já os outros, e para eles, reclamo justiça.
*Em Karamázov, Brothers
In: Emmanuel Lévinas. Ética e Infinito.
Lisboa: Edições 70, 1988.
por aly . 12:16 AM .
Sábado, Fevereiro 07, 2004
Cartaz da distribuidora Miramax para o mercado global
SOBRE CIDADE DE DEUS
Ivana Bentes, professora e pesquisadora da área de comunicação e cultura na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ):
"O filme é altamente eficiente como linguagem, mas o Oscar é uma comprovação. 'Cidade de Deus' pega um tema local, da favela e das drogas, e o trabalha na chave do cinema hollywoodiano de ação, a meu ver sem distanciamento crítico", afirma a pesquisadora, que prepara um livro sobre a 'cosmética da fome'.
Para Bentes, do 'Orfeu Negro' de Marcel Camus, em 1959, a 'Cidade de Deus', a representação da favela brasileira viajou de um paraíso idílico ao inferno que apenas representa pobres se matando uns aos outros. "É quase igualmente caricatural nos dois casos."
Ela compara a imagem dos traficantes negros animalizados, que se matam uns aos outros em 'Cidade de Deus', a dos 'Assassinos por Natureza' (Oliver Stone, 1994) de Hollywood. "Por isso chegou ao Oscar", diz.
"Maniqueísta e conservador, o filme levaria por intermédio do Oscar uma nova imagem exótica do Brasil, do 'turismo do inferno'. "
O Oscar daria força a um movimento de legitimação da publicidade dos temas sociais, que ela identifica também em filmes anteriores como 'Central do Brasil' (Walter Salles, 1998).
A pesquisadora se descreve, ela própria, como ambivalente em relação à acolhida do filme pela Academia. "Por um lado rompe com nosso complexo de inferioridade. Mas, por outro, vamos continuar sendo apresentados como assassinos por natureza?"
Ela tenta condensar o sentimento ambíguo: "Que bom que estamos no Oscar. Que pena que é um filme que vai reforçar clichês e formar clichês da próxima imagem internacional sobre o tema".
Oscar Confirma Caricatura, Diz Estudiosa:
por Pedro Alexandre Sanchez. Leia a entrevista na íntegra: Folha de S.Paulo, 06/02/2004
Leia, tb, Guilherme Fiuza: No Mínimo.
Ivana e Guilherme falam
por aly . 2:09 AM .
Sexta-feira, Fevereiro 06, 2004
GEORGES BATAILLE: O CULPADO
"Curva-te apenas para amar"
René Char
"O hoje fugaz é tênue e é eterno:
Outro céu não esperes, nem outro inferno."
Jorge Luis Borges
"O que importa, a meu ver, é o momento da decolagem;
o que eu ensino (se é verdade que...) é uma embriaguez,
não é uma forma de filosofia: não sou um filósofo,
mas um santo, talvez um louco."
Georges Bataille
A ALELUIA
No suplício de amar me escapo de mim mesmo. E, nu, acedo à transparência irreal. Não sofrer mais, não amar mais, me limita, ao contrário, ao meu próprio peso.
A reprodução dos animais sexuados e dos homens se divide em duas fases, das quais cada uma tem algo demasiado pleno, de excessiva dilaceração e de perda. Dois seres se comunicam, na primeira fase, pelo canal de suas dilacerações. Nenhuma comunicação é mais violenta. O rasgão oculto (como uma imperfeição, como uma vergonha do ser) desnuda-se (se confessa), se liga avidamente a outro trapo: o ponto de encontro dos amantes é o delírio de dilacerar e de ser dilacerado.
A fatalidade dos seres finitos deixa-os no limite deles mesmos. E este limite está dilacerado. De aqui, o sentido dilacerante da curiosidade!
Só a covardia e o esgotamento mantém-nos à parte.
Inclinada sobre o vazio, o que em sua profundidade adivinhas é o horror.
De todos os lados se aproximam outros corpos dilacerados; enfermos, contigo, do mesmo horror, estão enfermos da mesma atração.
A fenda, sob o vestido, é peluda. No vazio aberto à desordem dos sentidos, os extenuantes jogos de luz do prazer fazem tremer.
O vazio desesperante do prazer, que infinitamente nos compremete a fugir para mais além de nós mesmos, na ausência, seria irrespirável sem a esperança.
Num sentido, a esperança é enganosa, porém ninguém sofreria a atração do vazio se a aparência do contrário não interviesse.
Georges Bataille, El Aleluya: Catecismo de Dianus,
in: El Culpable. Madrid: Taurus, 1981.
tradução: aly
Ilustração: Os Olhos de Bataille ou La Bataille d' Eros
montagem
por aly . 3:37 AM .
Quinta-feira, Fevereiro 05, 2004
Hilda Hilst imortal
Morreu Hilda Hist, artista genial que tive o prazer de conhecer pessoalmente, graças a dois amigos, a saudosa Lydia Westin e Picoco Bárbaro. Fizemos duas visitas à Casa do Sol, nos arredores de Campinas, onde Hilda Hilst vivia e recebia amigos e estudiosos de sua obra. Trajando uma bata despojada, que lhe dava um ar de sacerdotiza, a artista conversou conosco à mesa da sala de jantar, diante de um aparelho de televisão recém-desligado e de uma garrafa de uísque, que ela tomava medindo cada dose colocada no copo. "Não posso tomar mais que quatro doses por noite", dizia, sorrindo malandramente. Durante a conversa, perdia a conta. Entretanto, se mantinha lúcida e bem-humorada.
Na segunda visita, Hilda Hilst estava tomada por uma euforia, causada pelos poemas que acabara de escrever. Explicou-nos como tivera a inspiração dos versos geniais, mostrados ainda manuscritos. Ela estava no banho, quando reparou que uma antiga mancha de umidade na parede representava o rosto de Camões, tal qual ele aparece nas ilustrações de enciclopédias. "Duvidam? Então me acompanhem". E nos levou ao banheiro, nos posicionou como ela estava e nos fez testemunhar a aparição. Ficamos divididos entre os que reconheciam o vate e os que, como eu, não conseguiram. De volta à sala, com sotaque lusitano, Hilda leu os poemas.
Aí, já não importava a aparição ou não de Camões. Perfeitos, os versos - me perdoem os portugueses - tinham igual beleza e tanta grandiloqüência como as do grande poeta lusitano. Tinham mais, uma angústia valente, feminina, desafiadora, a indagar os mistérios do viver e do amar. Ouvi-la nos levou a um êxtase que, a mim, deu a sensação de estar diante de uma entidade já pronta pra imortalidade, já imortal. Foi uma das mais empolgantes sensações que tive, em toda a minha vida. Essa coletânea de poemas, Hilda dedicou à filha do médico Aristodemo Pinotti, seu amigo, ex-reitor da Unicamp. A moça, de pouco mais de vinte anos de idade, morreu em trágico acidente de carro, pouco tempo depois da nossa visita à escritora.
Encerro estas linhas citando um trecho de "Sobre a Tua Grande Face", livro editado por Masso Ohno Editor, em 1986; "Honra-me com teus nadas/ Traduz meu passo/ De maneira que eu nunca me perceba. / Confunde estas linhas que te escrevo/ Como se um brejeiro escoliasta/ Resolvesse/ Brincar a morte de seu próprio texto".
Por Erazê Martinho: inmailboxinboxmail, 4 de fevereiro de 2004, 23h11m
por aly . 1:50 AM .
Quarta-feira, Fevereiro 04, 2004
Editado em 1921.
Não é a cara da mulher que os brasileiros gostam?
E também a face do que as brasileiras querem ser,
ou já são?
Comigo não, Maria João, estou com as malas prontas.
Falta só um dinheirinho pros primeiros dias fora daqui:
Europa.
Aos poucos, publico o conteúdo deste livro pra agradar
gregas e troianos: as ilustrações.
Só pra chatear
De Príncipe Pretinho
Na voz do Formigão: Ciro Monteiro
Eu mandei fazer um terno
Só pra chatear
Com a gola amarela
Só pra chatear
Mandei bordar na lapela
Só pra chatear
O nome que não era o dela
Só pra chatear
Comprei um par de sapatos brancos
Pois sei que ela só gosta de marrom
Só pra chatear, só pra chatear
Cada pé de sapato tem um tom
Comprei um bangalô pra chatear lá na favela
Mas vou morar na Lapa
Perto dela
Só pra chatear
por aly . 11:44 AM .
Terça-feira, Fevereiro 03, 2004
Sean Penn
ÉPOCA - Sua visão sobre a guerra no Iraque também foi muito passional.
Penn - Aquilo era algo que me incomodava, provocava um debate interno muito intenso. Senti que tinha de fazer alguma coisa. Se você se considera um artista, ou se é uma pessoa com alguma postura nessa indústria do cinema, é obrigado a pensar politicamente durante todas as horas em que estiver acordado.
ÉPOCA - O senhor se considera um americano patriótico?
Penn - Sou mais patriótico do que este presidente que temos, e que considero um traidor dos princípios americanos e humanos.
ÉPOCA - Como reagiu às críticas que recebeu de seus colegas, quando voltou de sua viagem a Bagdá?
Penn - Não me surpreendo com o fato de existir um monte de covardes confortáveis em minha profissão.
Leia a entrevista na íntegra: ÉPOCA -Edição 298 - 30/01/04
por aly . 2:37 PM .
MURILOGRAMA A BAUDELAIRE
Traz o pecado orin = existir
Maneja o caos que regula.
Palavra: pessoa, despessoa.
Desventra a rua-universo.
Enfanterrible totalizador.
Debruça-se à janela da pintura.
Poesia e coração, áreas opostas.
Heautontimoroumenos.
Inventa a simetria dissonante.
Negro luminoso: a cor do seu estema.
Telefona = lhe a Medusa.
Sofre de modernidade ou de ser B?
Funda um reinoilhasalão.
Assume o espaço da música.
Parelo à putain, ao pária.
Constrói a mulher naviforme.
Razão + cálcuculo: supernatureza.
Anexa o leitor, sósia e sigla.
Mineral. Artificioso. Ri-se.
Fantasia, alquimia e álgebra.
Metáfora: equivale a épura.
Aurora citadina, aurora "autre".
Aloprado. A lógica do absurdo.
Sonho: sinal matemático.
Da morte - operação extrai o novo.
Morte: única novidade pros modernos.
Terrible Baudelaire toujours recommencé.
Roma 1965
Murilo Mendes: Convergência, 1963-1966
por aly . 12:55 PM .
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